terça-feira, 23 de outubro de 2012

Como Utilizar as Estatísticas de Jogo


Nos dias de hoje, não se acompanha mais o esporte sem as estatísticas de desempenho de atletas e equipes. Contudo, quem começa a ler essas informações deve atentar para o contexto em que elas são apresentadas. Analisar simplesmente os números frios, pode ser uma forma inadequada de se avaliar a performance esportiva. Além disso, nenhum dos fundamentos deve ser analisado sem estar atrelado aos outros. Entenda que durante a partida um evento é influenciado pelo anterior, de modo que um rebote (ofensivo ou defensivo) depende da forma como o arremesso foi executado.  Assim, ao valorizar um bom número de rebotes ofensivos de sua equipe, lembre-se de que há proporcionalmente um relativo número de arremessos errados.

Nos EUA há muito tempo acredita-se no fenômeno da hot hand, que parte do princípio de que a chance de se acertar um lance livre após um acerto anterior é maior do que após um erro. Alguns estudos bastante interessantes foram realizados (1-3) e suas análises contestando ou ratificando esta teoria servem de bons exemplos para entendermos o quão complicado é acompanhar a performance esportiva com base nas estatísticas do jogo.

A maior lição que deve ser aprendida é o fato de que o scout de um jogo ou a performance recente de uma equipe não têm poder de prever o que pode vir a acontecer na partida seguinte. Em suma, a estatística explica o passado, mas não prevê o futuro. Se fosse assim, ao invés de entrar em quadra para disputar a bola, seria suficiente apresentar um card com as estatísticas da equipe na última temporada e comparar com os dados do adversário, como num jogo bem popular de minha infância, o Super Trunfo, que comparava carros de turismo, de fórmula 1, caminhões, motos, lanchas, aviões e até balões, pelas suas descrições técnicas (cilindradas, empuxo, velocidade máxima, etc). Vencia a disputa quem tivesse os valores mais altos do item escolhido.

O uso da estatística no esporte no Brasil ainda tem sido mal explorado e mal interpretado.  Há um pouco mais de 20 anos, surgiu uma proposta de representação gráfica do desenvolvimento do jogo  (4). No exemplo abaixo, as equipes do Los Angeles Lakers e Seattle Supersonics faziam em Seattle o jogo nº 6 dos play-offs da Conferência Oeste da NBA em 1989. Pelo gráfico, pode-se notar que o time da casa liderou o placar durante quase todo o tempo, perdendo a liderança apenas nos últimos 6 minutos de jogo. A diferença entre as equipes chegou a ser de confortáveis 28 pontos em favor do Sonics. Mas, se olhássemos as estatísticas isoladamente, não teríamos condições de observar adequadamente o desenrolar do jogo.  





Vamos a outro exemplo. Nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, o encontro entre Espanha e Grã-Bretanha terminou com estas estatísticas abaixo.

Espanha
Fundamento
Grã-Bretanha
49%
2 pts
49%
24%
3 pts
38%
66%
Lances Livres
69%
22
Assistências
12
15
Rebotes Ofensivos
10
28
Rebotes Defensivos
26
3
Roubadas
4
6
Tocos
1
13
Erros
13
0,88
Eficiência Ofensiva*
0,93
                               *pontos por posse de bola

O placar do jogo não foi apresentado aqui propositalmente. Se olharmos alguns dos dados acima, poderemos concluir que a Grã-Bretanha saiu vencedora do confronto, ao considerar os percentuais de aproveitamento de arremessos de quadra e lances livres, o maior número de rebotes em disputa (indicativo de maior quantidade de arremessos errados pelo time visitante) no garrafão britânico (41 vs 38) e, por fim, a maior eficiência ofensiva dos anfitriões. No entanto, a Espanha teve 90 posses de bola (78 pontos) e a Grã-Bretanha teve apenas 84 (72 pontos), ou seja, o placar final do jogo difere do que estas estatísticas acima nos fazem acreditar.

Todo treinador precisa ter seus jogos filmados para poder analisá-los não apenas sob o manto descontextualizado das estatísticas, mas também sob uma ótica de análise de jogo de forma mais completa, associando o scout às variações da pontuação entre as equipes, ao ritmo de pontuação, assim como às tomadas de decisão de seus atletas. E mais, não confie na memória! Filme o jogo, assista-o fazendo anotações e depois acompanhe suas notas com os dados descritivos do estatístico. Quanto mais informações você tiver, mais feedback terá a dar a seus atletas e melhor será sua programação de treinos.


Referências

  1. Gilovich, T.; Vallone, R.;Tversky, A. The hot hand in basketball: on the misperception of random sequences. Cogn Psychol, v. 17, p.295-314, 1985.
  2. Wardrop, R.L. Simpson´s paradox and the hot hand in basketball. Amer Stat, v. 49, n.1, p. 24-8 , 1995.
  3. Yaari, G.; Eisenmann, S. The hot (invisible?) hand: can time sequence patterns of success/failure in sports be modeled as repeated random independent trials? PLoS One, v.6, n.10, p.1-10, 2011.
  4. Westfall, P.H. Graphical presentation of a basketball game. Amer Stat, v.44, n.4, p.305-7, 1990.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Que Aprendemos Em Londres?


Passada a euforia das disputas nos Jogos, podemos agora fazer uma avaliação dos eventos ocorridos com a delegação brasileira em Londres, suas causas e consequências para 2016. Este ano tive a oportunidade de assistir os Jogos Olímpicos de uma forma diferente das outras vezes, consultando sistematicamente os comentários e opiniões postados no twitter, facebook e nos mais diversos blogs brasileiros. E pelo que li, permito-me ficar com a impressão de que ganhar uma medalha olímpica é fácil, muito fácil, tamanha foi a quantidade de críticas ao desempenho dos atletas brasileiros nas terras da rainha britânica. Terá sido essa nossa pior participação olímpica? Não, não foi. Tampouco mostramos evolução esportiva esperada em resposta ao investimento feito. Parece que daí é que surgem os grandes desdobramentos que vão alimentar os debates dos próximos quatro anos. Como devemos avaliar criticamente, sem ufanismos nem cornetagens, o desempenho do “Time Brasil” em Londres? Quais os caminhos para nos tornarmos uma potência olímpica? Quais são as barreiras ao desenvolvimento esportivo nacional? Nossos atletas amarelam? Estas perguntas serão debatidas ao longo deste e de outros textos que em breve estarão aqui no blog. Vamos começar...

O lendário lema dos Jogos Olímpicos “O importante não é vencer, mas competir!” parece ter sido interpretado de forma equivocada por tantos anos. O velho Barão de Coubertin certamente não ficaria satisfeito se seus esforços para reeditar o maior evento esportivo do planeta se resolvessem numa pura e simples participação nas provas. Duvido! Competir é disputar, é fazer o possível para conseguir o lugar mais alto do Olimpo. Ganhar ou perder são consequências de um aglomerado de circunstâncias que precisam atuar concomitantemente para que o sucesso seja possível. Por exemplo, o nadador Bruno Fratus saiu das piscinas sem medalha no peito, mas fez o melhor tempo de sua vida nos 50 m livre. No atletismo, a equipe de revezamento 4 x 100 m feminino bateu o recorde sulamericano da prova, mas não foi suficiente para a medalha olímpica. 
O handebol feminino também não passou das quartas de final, mas hoje, embora não esteja no mesmo nível, já pode ser vista com respeito pelas principais potências europeias da modalidade. Devemos considerar estes resultados como sucesso ou fracasso?

E estes outros: Maurren Maggi teve um ciclo olímpico irregular e intermediado por lesões repetidas e uma intervenção cirúrgica. Por essa razão, não se esperava medalha, mas nossa saltadora de ouro em Pequim fez falta na final do salto em distância, no mínimo para botar pressão nas adversárias. Fabiana Mürer era a mais forte candidata à medalha, visto seu retrospecto recente nos campeonatos mundiais do salto com vara. Não ganhou medalha. Não foi à final. Não tentou o último salto. Depois, saiu de lá como se tudo fosse absolutamente normal, como se tivesse desistido de tomar um cafezinho por não ter sua marca de adoçante preferida. E o glorioso futebol, esporte que se identifica com todas as camadas da população? 


O futebol, é bem verdade, merecia um capítulo à parte. Exagera quem diz que o Brasil tinha o seu principal time e os adversários não. Nosso time para 2014 não será aquele de Londres. Vai mudar goleiro, lateral direito, zaga, volantes, meias, e talvez até os atacantes. Ou seja, muita água vai rolar até a Copa. Este time nunca inspirou a plena confiança nem mesmo antes de aportar na Grã-Bretanha. Ainda assim, jogou contra adversários mais fracos e passou por dificuldades várias vezes. E aos olhos do mundo, não ganhou a prata, mas perdeu o ouro. É bem verdade que ninguém imagina que vai começar o jogo com 1 x 0 para o adversário (gol aos 29 segundos de jogo!). 
Mas para um esporte que tem um milionário orçamento anual (o mais alto entre todas as modalidades) e que está para o Brasil assim como o basquetebol está para os EUA, este interminável jejum de ouro olímpico envergonha até o torcedor mais ufanista do país! Só pra se ter uma noção, o basquete norte-americano tem 21 ouros (14 masculinos e 7 femininos), enquanto nosso futebol tem zero! Pra onde vai o planejamento e o investimento de tantos anos?


Em minha opinião, atleta olímpico não tem obrigação de ganhar medalhas, mas deve ter o mais intenso desejo de conquistá-la! E quando você deseja algo de verdade, faz o possível para conquistá-lo. E numa hora como essa me lembro do ensinamento do maior de todos os treinadores de basquetebol da história, John Wooden: “Sucesso é a paz de espírito proveniente da consciência de que você fez todo o esforço possível para se tornar o melhor dentro do seu potencial”.

Por falar nisso, e o basquete? Bom, o masculino disse a que veio. Penso que muitos ainda não dimensionaram o que representou a simples classificação para Londres. Vejam, se a classificação não fosse efetivada, o basquete brasileiro perderia não apenas mais 4 anos, mas sim 8 anos para se reerguer, pois a vaga para Rio 2016 é automática e entraríamos desacreditados, como se tivéssemos penetrado na festa pela entrada dos garçons. Precisávamos ganhar a vaga na quadra, jogando, e não burocraticamente por ser o país sede. Precisávamos merecer nosso lugar no torneio olímpico. E depois de três ciclos olímpicos de fora (não gosto da conta de “16 anos fora” para um evento que só ocorre de 4 em 4 anos!), voltamos.
O grande mestre Prof. Wlamir Marques fez (em minha opinião) o mais lúcido e atento comentário sobre a equipe brasileira nos Jogos ao ressaltar que não fomos a Londres para ganhar medalha, e sim para resgatar a imagem do basquetebol brasileiro no cenário internacional. Visão de quem já ostentou no pescoço duas medalhas olímpicas e dois títulos mundiais! Então, professor, missão cumprida! Poderia ter sido melhor? Claro, sempre pode ser melhor. Entretanto, a base do trabalho para a próxima vez está consolidada e creio que os frutos devem ser colhidos ao longo dos próximos dois ciclos olímpicos. Por outro lado, o feminino saiu daqui desacreditado, chegou lá desmembrado, e voltou pra casa derrotado. Temos um problema que parece de difícil solução em curto prazo: não temos adversários na América do Sul! Isso mascara sobremaneira as limitações de nossos times. Precisamos de uma Liga Sulamericana de clubes forte, precisamos de intercâmbio com países europeus. E precisamos que a Liga de Basquete Feminino decole! E isso é só ponta do iceberg.

O que está abaixo da linha d’água, a parte submersa do iceberg, é o maior de todos os problemas. Mas ao mesmo tempo, penso que não seja. Vou dar o exemplo de duas modalidades cujas Confederações parecem ter encontrado soluções para enfrentar os desafios do desenvolvimento esportivo. O judô levou 14 atletas a Londres, colocou 11 deles entre os oito melhores do mundo e ainda se fez presente em quatro pódios. O vôlei (quadra + praia) disputava seis medalhas, ganhou quatro, e mais, continua a manter-se entre os seis primeiros do mundo desde de 1980 no masculino e de 1988 no feminino. Foram 11 medalhas somente nas últimas três edições de Jogos Olímpicos, sendo quatro ouros. Para agravar a situação, o vôlei de quadra é a única modalidade coletiva brasileira a ouvir o hino nacional nos Jogos Olímpicos! Foram quatro títulos de campeão olímpico desde 1992 em Barcelona. E até agora, ninguém mais repetiu o feito. Na praia, que é olímpica desde 1996, o Brasil nunca deixou de marcar presença nas cerimônias de premiação. O que me deixa incomodado é que o vôlei em tese tem as mesmas dificuldades e limitações operacionais que o basquete (inclusive a disputa de público com o futebol). Mas como o vôlei conseguiu atingir e permanecer na elite mundial do esporte e o basquete não?

Já comentei outras vezes aqui no É Cesta! que a formação dos dirigentes esportivos é um fator fundamental para o crescimento esportivo do país no longo prazo. O vôlei e o judô entenderam isso faz muito tempo, mas parece que as demais modalidades ficaram vendo o bonde passar e não aproveitaram as mesmas oportunidades. A Confederação Brasileira de Voleibol tem um centro de treinamento especializado e bem estruturado, cursos de capacitação de professores e treinadores em todo o país, planejamento comercial (marketing) eficiente, e de forma mais ousada, a recém-criada Universidade Corporativa do Voleibol, que pretende formar profissionais para as mais variadas funções associadas à excelência da performance da modalidade no país.

O que aprendemos em Londres é que o caminho para o desenvolvimento do basquetebol e do esporte brasileiro em geral estava logo aqui ao lado e o tempo todo, mas ninguém se tocou! 

O pior cego é aquele que não quer ver...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Muito Longe de Londres ou Rio de Janeiro


O esporte brasileiro está prestes a mostrar ao mundo seu valor. Logo após o fim da epopeia londrina, precisamos focar em definitivo nos megaeventos esportivos que vamos organizar ao longo do próximo ciclo olímpico. Enquanto esperamos a conquista de medalhas e performances expressivas em Londres (2012) e no Rio de Janeiro (2016), existe um outro lado do esporte brasileiro que não aparece na mídia esportiva nacional. Uma realidade bem diferente e incoerente com as intenções de trazer os Jogos Olímpicos e Paralímpicos para nossas terras a fim de, entre outras coisas, fomentar a prática do esporte em todas as suas dimensões (sócio-educativa, lazer ativo, promoção de saúde e qualidade de vida, alto rendimento e entretenimento popular). Quando nos afastamos dos grandes centros do país, o que observamos é a total disparidade entre as honrosas conquistas e demonstrações de superação de nossos atletas olímpicos e paralímpicos e aquilo que se propõe e que se pratica nas demais regiões.

Vou dar o exemplo do basquetebol sergipano. Quando cheguei aqui em Aracaju, em 2006, para ser professor da Universidade Federal de Sergipe, não tinha planos de voltar a trabalhar com esporte. Mas, no ano de 2008, exatamente uma década afastado da modalidade, me deparei com a inevitável situação de assumir a disciplina Metodologia do Basquetebol na UFS. Paralelamente, resolvi aceitar o convite de alguns alunos e assumi a direção da equipe universitária de basquetebol. De início, a ideia era apenas a participação nos Jogos Universitários Brasileiros, mas logo veio o interesse de participar de outras competições, como o Campeonato Estadual Adulto.

No dia da estreia no Estadual, me senti constrangido quando o árbitro principal da partida veio a mim e solicitou o pagamento da taxa de arbitragem antes que a partida se iniciasse. O pagamento era feito ali na quadra, na frente de todo mundo. Parecia que estávamos pagando propina aos árbitros! Durante os anos em que fui atleta e técnico no Rio de Janeiro, nunca passei por situação similar. As taxas de arbitragem eram pagas ao final do mês pelo clube, contabilizando o número de partidas disputadas em cada faixa etária e em função das categorias dos árbitros.

Mas aqui em Sergipe não existem clubes participando dos campeonatos, e quem faz o esporte de base são as escolas. Algumas delas...aliás, somente quatro escolas participaram dos campeonatos estaduais de base este ano. A Federação Sergipana de Basketball (FSB) tem apenas três filiados, sendo uma escola e dois clubes, mas estes clubes não oferecem o basquetebol em sua grade de atividades aos sócios. Em um deles inclusive, o teto do ginásio desabou em 2006 e nunca mais foi restaurado. É difícil administrar o esporte se a Federação não tem arrecadação. E em função da ausência dos clubes, para organizar a tabela do campeonato, a FSB precisa contar com a nem sempre possível disponibilidade de quadras em escolas, no Sesc/Sesi ou no Ginásio Estadual (enorme e sempre vazio para nosso público). Os jogos acontecem em rodada única, todos na mesma quadra. Não temos jogos ocorrendo concomitantemente em vários ginásios. Isso afeta até o número de árbitros no quadro da Federação. Não adianta ter árbitros demais se os jogos são raros.

Apesar da FSB ser a única federação esportiva aqui no Estado com toda sua documentação em dia (mérito do atual presidente, um especialista em contabilidade), a captação de recursos via patrocinadores tem se tornado escassa. Assim, se não há recursos, não há como haver muitos jogos. Vejam só a situação:

Campeonato Estadual Sergipano 2012
Categoria
Equipes Participantes
Total de Jogos Previstos
Partidas Disputadas pelo Campeão
Sub-15 Feminina
2
Melhor de 5 partidas
3
Sub-17 Feminina
3
3
2
Sub-15 Masculina
6
10*
4
Sub-17 Masculina
5
10**
4
          *Um dos jogos foi WO;
**Houve um WO e por isso outras duas partidas não foram realizadas.

Pois é. Além de não termos campeonatos sub-13 e sub-19, a quantidade de jogos disputados pelos nossos times é absurdamente baixo. Claro que não é só isso. As equipes também disputam jogos escolares (pelo menos três outras competições no ano), mas em geral com adversários muito inferiores e com regulamento adaptado por razões financeiras (tempo de jogo de quatro períodos de 8 minutos corridos, por exemplo). Fica complicado fazer com que nossos técnicos, atletas e árbitros se desenvolvam adequadamente com esta situação.

Em relação à categoria sub-19, as escolas só jogam até a sub-17, e como não temos clubes, quando o atleta chega aos 18 anos, não tem mais onde jogar. No campeonato adulto, nenhum clube oficial participa. Eventualmente alguma escola resolve participar, às vezes com atletas demasiadamente jovens para este tipo de torneio. Os times são criados entre amigos que pagam do próprio bolso a confecção dos uniformes e a taxa de inscrição no campeonato, e ainda por cima, a FSB condiciona a participação da equipe à presença de um técnico. Ou seja, os raros que se habilitam à função, têm que trabalhar de graça, pois não há perspectiva de receber salário.

Há pouco tempo atrás, pensei em criar um projeto de extensão na UFS para viabilizar a detecção de talentos esportivos. Mas, se encontrar um jovem com potencial esportivo interessante, vou encaminhá-lo para onde se não temos clubes? Acho que o papel do esporte escolar é meramente a detecção de talentos, não sua promoção ou desenvolvimento. E não creio que possamos desenvolver talentos fazendo uma meia dúzia de jogos ao ano.

O pior de tudo é saber que esta realidade não é exclusividade nem do basquetebol e nem mesmo do Estado de Sergipe. Esse foi só um exemplo para mostrar a cruel realidade que o país dos próximos Jogos Olímpicos terá que enfrentar.

Se você passa por situação semelhante, comente aí embaixo!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nosso Basquete Feminino

O basquete feminino brasileiro já viveu seu momento de maior expressão da modalidade no mundo. Durante uma década inteira, os corações basqueteiros daqui se orgulharam das conquistas do Panamericano de Havana (1991), o Campeonato Mundial na Austrália (1994), e das medalhas de prata nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996), e bronze em Sidney (2000).
 
 
 
Infelizmente, com a virada do milênio, parece que o esporte brasileiro perdeu seu brilho e seu status. Apesar das constantes participações nos torneios olímpicos, nunca mais alcançamos o pódio nas principais competições do mundo. O que tem acontecido?
 
Sabemos que o esporte feminino não obtém a mesma oportunidade na mídia esportiva, e isso não é só no Brasil. A cobertura da imprensa para os jogos femininos da NCAA ou da WNBA, assim como de nossa ainda jovem Liga de Basquete Feminino (LBF), é muito modesta. De que maneira isso reflete sobre a qualidade do trabalho desempenhado nas quadras? Penso que muito. A CBB passou por mudanças administrativas que ainda não surtiram os efeitos desejados e que podem fazer o hino nacional ser ouvido novamente na cerimônia de premiação dos Jogos Olímpicos. Não conheço profundamente o trabalho do atual técnico, Luís Cláudio Tarallo, apenas vi seu currículo mais recente no site da própria CBB, e fica óbvio que lhe falta experiência. Mas esta experiência só se adquire com o tempo e as responsabilidades de tomar decisões.
  
Não gostei do fato da seleção feminina ter tido um grande rodízio de treinadores durante este ciclo olímpico, pois isto impede a determinação de uma filosofia de trabalho e padrão de jogo no longo prazo. Estas coisas não se resolvem do dia para a noite, portanto o técnico precisa de tempo para trabalhar. Faz parte de seu trabalho assistir aos jogos e competições, receber e interpretar as informações de atletas que jogam no exterior, acompanhar as divisões de base para que se possam identificar aquelas atletas que podem fazer parte da seleção alguns anos depois. Preparação olímpica ocorre constantemente, não apenas próximo à competição.

Vi numa entrevista da diretora do basquete feminino da CBB, a ex-atleta Hortência Marcari, que a intenção da instituição é dar vivência neste tipo de competição ao treinador Tarallo, para que em 2016 ele esteja em plenas condições de obter resultados mais expressivos. Temos que analisar isso de duas formas diferentes. Uma é que este é o início de um novo processo, de renovação da estrutura do basquete feminino brasileiro, e que diante do atual quadro, acertadamente estamos sacrificando os Jogos de Londres 2012 para nos prepararmos de fato para o ciclo seguinte. Correto. A outra análise é por que deixamos escapar o que tínhamos de concreto nos anos 1990? Será que um título mundial e duas medalhas olímpicas não eram suficientes para mobilizar variados projetos de iniciação esportiva, em especial entre meninas, no basquetebol brasileiro? Por que o esporte brasileiro é tão dependente de “momentos extraordinários” ou “gerações espontâneas de atletas” e não baseado em uma linha de trabalho que permita continuidade?
 
O curioso é que na América do Sul, ainda não temos adversárias. Mesmo países com contínuos trabalhos de qualidade no masculino, como Argentina, República Dominicana, Porto Rico ou Venezuela, não conseguem montar equipes femininas que exijam da seleção brasileira um esforço diferenciado para vencer as partidas. Urge a necessidade do Ministério do Esporte, do Comitê Olímpico Brasileiro, da Confederação Brasileira de Basketball e da Escola Nacional de Treinadores de Basquetebol trabalharem em conjunto para que sejam traçados os planos para o futuro do basquete feminino no Brasil. Acho que o mundo da bola laranja espera isso de nós.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A Formação de Técnicos Desportivos no Brasil


Em breve fecharemos um ciclo de 10 anos de realização de eventos esportivos de grande porte em nossas terras. Desde 2007, quando foram celebrados os Jogos Panamericanos e Parapanamericanos do Rio de Janeiro, recebemos a incumbência de sediar Jogos Mundiais Militares, Copa das Confederações, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Com tanto investimento público e privado, seria bastante natural que as críticas enfatizassem a questão do legado que fica para a cidade- ou país-sede, e uma das dimensões debatidas é o legado esportivo. Em relação a isso, não podemos nos limitar a pensar sobre o que fica depois dos Jogos, mas sim sobre aquilo que é feito antes dos Jogos.

Neste sentido, muito tem sido comentado sobre a formação dos atletas em nosso país (independentemente de modalidade), e a preparação de nossas equipes para disputar os não tão distantes Jogos Olímpicos de 2016. Na época da 2ª Guerra Mundial, Winston Churchill expressava que quem falha ao se preparar, prepara-se para falhar. Entende-se, portanto, que o planejamento é a base de tudo. Esta etapa precisa ser alimentada pela experiência dos envolvidos e pela interpretação dos dados coletados ao longo de anos, sempre alicerçados por um instinto visionário e estrategista. Já debatemos aqui no blog sobre a importância da formação de árbitros e dirigentes, que são elementos essenciais para o desenvolvimento do esporte, mas precisamos também nos debruçar sobre a formação dos formadores de atletas, em todos os níveis e etapas do processo.

Mas onde devem se formar os treinadores esportivos? Parece que a resposta é simples, mas de fato não é. As faculdades da educação física em boa parte do país sofreram modificações em seus currículos e projetos pedagógicos que acabaram por desvalorizar uma formação mais específica de seus egressos, partindo para algo mais generalista e superficial. Hoje posso afirmar que, salvo raras e louváveis exceções, nenhum técnico esportivo é formado pura e simplesmente nos nossos cursos. Se ao menos uma base teórica for estabelecida no âmbito da vida acadêmica universitária, cursos complementares tornar-se-ão o caminho obrigatório para o encerramento de sua formação. A Escola Nacional de Treinadores de Basquetebol (ENTB) foi uma boa iniciativa. Não se iludam, pois ela não resolverá por definitivo os problemas do nosso esporte, mas certamente ajudará (e muito!) a darmos um passo mais consolidado nesta perspectiva.

É necessário que haja núcleos da ENTB em cada Estado viabilizando um acesso mais estreito à informação, com grupos de debates e apresentações de trabalhos, de modo a fazer com que os reais problemas e dificuldades enfrentadas pelos atuais treinadores venham à tona e que as possíveis soluções surjam com mais embasamento. A regionalização dos problemas e das soluções deve ser respeitada para que ninguém pense que a ideia que deu certo em São Paulo, Brasília ou Rio de janeiro, vai funcionar perfeitamente em Sergipe, Alagoas ou Rondônia.

A formação dos formadores de atletas precisa ser a prioridade nesta etapa do processo, se não vamos continuar nacionalizando estrangeiros para cobrir as lacunas deixadas por nossas próprias falhas. No entanto, duas palavrinhas têm de estar na ordem do dia: planejamento e paciência. Pra que tudo isso dê certo, temos que esperar o momento certo para cobrar os resultados. E convenhamos, paciência nunca foi uma característica do esporte brasileiro...


                                                    “Se você quer ter resultados diferentes no futuro,
                                                     tem que começar a fazer coisas diferentes agora!” 
                                                                                    (Paulo Emannuel da Hora Matta)

sábado, 30 de junho de 2012

Ser Campeão Hoje ou no Futuro?


Por Luiz Eduardo M. Gois Jr

Como já foi dito no texto "Progressão Pedagógica no Basquetebol" o basquete dever ser ensinado respeitando as faixas etárias dos alunos, apresentando novos elementos a cada ano e tornando o aprendizado cumulativo. Em outro texto, “E Agora o Que Eu Faço”, comentamos que o jogador de basquetebol é obrigado a tomar decisões em curto espaço de tempo. Portanto ensinar o “por que fazer” deve fazer parte do conteúdo programático de ensino do basquete desde primeiras fases de aprendizagem e deve ser mais importante do que simplesmente ensinar o “como fazer”.

Em alguns Estados brasileiros os clubes não participam do processo de formação de atletas e equipes, cuja responsabilidade passa a ser exclusivamente das escolas. Nestas praças os campeonatos escolares têm relativamente bom espaço na mídia, o que acaba tornando-os um meio de fazer propaganda das escolas. E para isso, os resultados expressos na forma de títulos e medalhas, são os principais objetivos das escolas e consequentemente dos professores. Essa busca por este tipo de resultado nas divisões de base gera problemas que deveriam ser evitados. Essa pressão por resultados faz com que os professores queimem etapas e às vezes utilizem abordagens metodológicas que não são adequadas para determinadas etapas de ensino da modalidade.

E quais são as metodologias usadas no ensino dos esportes? Existem duas principais, a metodologia tradicional, que é aquela que se preocupa com o ensino dos fundamentos fora do contexto do jogo, ou seja, apenas pela repetição do gesto. Exemplo, o ensino do passe utilizando duas colunas uma de frente para o outro passando a bola, excluindo um dos elementos principais da modalidade que é a oposição, o que vai acabar omitindo também as tomadas de decisão, as percepções das diferentes situações, etc.

Nessa metodologia é ensinado ao aluno apenas o “como fazer” e deixando de lado o entendimento do jogo, o “por que fazer”. Que pode ser ensinado utilizando a metodologia situacional, que tem como característica principal a utilização de situações de jogo. Exemplo, jogos de 1x1, 2x2, 3x3, nesse caso não existe a exclusão da oposição, além disso, vai estimular a capacidade de percepção e de tomar decisões dos jogadores. Fazendo uma analogia ao cotidiano, na metodologia tradicional o professor leva o aluno para um restaurante e determina qual o prato que ele tem que comer, já a situacional o professor mostra o cardápio para o aluno escolher o melhor prato. Ele pode até escolher errado e não vai gostar do prato, mas na próxima vez ele saberá que aquela opção não é a melhor e vai saber por que escolher um prato diferente.

O que acontece quando o principal objetivo do professor é ser campeão e não formar jogadores eles acabam utilizando apenas a metodologia tradicional, principalmente porque o resultado acontece mais rapidamente. Quando o professor está preocupado em formar um jogador ele utiliza as situações de jogo, trabalhando o entendimento da modalidade com seus alunos. A “desvantagem” desse método é o que o resultado só vem a longo prazo, o processo nessa metodologia é mais demorado e muitos professores não tem paciência para utilizá-lo.

Portanto, nas etapas de formação de atletas, é importante que os professores tenham uma visão a longo prazo e pensem na formação do jogador para que ele possa ser campeão no futuro e não apenas campeão mirim dos jogos escolares do ano corrente. E para isso dê ao aluno um cardápio para ele escolher o prato e não diga apenas o prato que ele deve comer.

O Dirigente Esportivo no Esporte de Base


Li num site de rede social esta semana uma denúncia/reclamação de uma pessoa que relatava ter seus atletas de categorias de base (e seus pais!) sendo assediados por um diretor de outro clube. No relato, havia promessas de ganhar camisas do clube e outras formas de brindes numa tentativa de seduzir os jovens atletas (todos menores de idade) e seus pais para se transferir para o novo clube.

Os comentários publicados logo abaixo do relato mostraram clara indignação dos leitores em relação ao gesto atribuído ao diretor. Infelizmente, esta é uma prática antiga, que pelo visto, ainda não entrou em desuso. Já escrevemos um texto recente acerca da formação e da atuação do dirigente esportivo, mas é certo que o assunto não se esgotou. Há uma premissa básica na formação de atletas que postula que “da quantidade extraímos a qualidade”. Assim, precisamos da massificação da prática esportiva para que possamos identificar e selecionar os talentos esportivos. Qual o passo seguinte?

Existem muitos professores e treinadores da base que, apesar de condições precárias e de baixos salários, executam trabalhos condizentes com sua paixão pelo basquetebol. Em clubes de baixo investimento estes treinadores chegam a trabalhar de graça. Depois de meses ou anos de dedicação, quando finalmente conseguem obter uma geração de atletas promissores, podendo fazer com que o clube de baixo investimento tenha chances de jogar quase em igualdade de condições com os clubes de alto investimento, surgem os convites destes últimos, desmontando time original. O resultado dessa iniciativa é o fim das atividades daqueles clubes.

Há uma decisão a ser tomada que parece simples, mas de fato não é. O que fazer com estes atletas iniciantes: deixá-los no clube original ou transferi-los para um clube maior? Vamos aos argumentos de cada lado. Deixar no clube original permite a continuidade do trabalho da instituição e visa à possibilidade de se descobrir outros talentos da modalidade, em função de haver mais um espaço disponível para a prática. Isso também tende a diminuir a diferença da qualidade de jogo entre os clubes de diferentes níveis de investimento. Por outro lado, há quem defenda a ideia de que o atleta pode vir a se desenvolver de forma mais consolidada se inserido numa estrutura mais abrangente. Neste contexto, os dois lados têm razão. Mas quem deve tomar a decisão?

Em nossa opinião, esta deveria ser uma decisão pautada no debate entre treinadores e não diretores. Vi diretores de categorias de base atuarem no sentido de enfraquecer seus rivais, sem se preocupar com o desenvolvimento do esporte. Em outras épocas, havia times sub-13 ou sub-15 no Rio de Janeiro que detinham todos os armadores de boa qualidade do Estado, não deixando nenhum para os adversários. O problema é que não há vaga para todos jogarem num mesmo time. Assim, o tal desenvolvimento a partir de uma estrutura melhor não acontecia, pois o atleta nem entrava em quadra. Melhor seria obter a experiência de jogo enfrentando as adversidades do próprio jogo na prática, mesmo num clube menos estruturado.

A responsabilidade do diretor de categorias de base não pode ser apenas com os títulos e medalhas de próprio clube, mas deve focar metas de desenvolvimento do esporte como um todo. Se não há adversários de qualidade, não há meios de fazer seu time melhorar. Este é um dos mais básicos princípios do treinamento desportivo: sobrecarga e adaptação. Seu time precisa enfrentar adversários de mesmo nível de jogo ou algo melhor (sobrecarga) para que possa melhorar suas habilidades atléticas, físicas, técnico-táticas, psicológicas e cognitivas (adaptação). Volto a insistir, o dirigente esportivo não pode ser simplesmente um ex-atleta ou pai apaixonado pelo esporte. Tem que ter formação específica para exercer ética e eficientemente sua função.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Uma Breve Análise do Draft 2012


O Draft, processo de seleção de novos atletas para integrar as equipes da NBA, este ano seguiu a mesma tendência das finais da última temporada, na qual Miami Heat e Oklahoma City Thuder jogaram sem armador especialista e com pivô limitado a um segundo plano. Os jogos foram concentrados nos jogadores das posições 2, 3 e 4 em ambas as equipes. O draft também. Dos 60 jogadores selecionados, apenas 6 (10%) são armadores, ao passo que 20 jogam como ala/pivô. A tabela abaixo mostra o número de atletas selecionados por posição em cada rodada e no total.

Posição
1ª Rodada
2ª Rodada
Total (%)
Armador
5
1
6 (10)
Escolta
5
7
12 (20)
Ala
5
7
12 (20)
Ala/Pivô
8
12
20 (33)
Pivô
7
3
10 (17)

Os comentaristas dos EUA relatavam previamente que havia poucas opções de armadores entre os inscritos no processo. Mesmo assim, alguns armadores ficaram de fora das escolhas. Comentei anteriormente que este pode ser um novo tempo, um novo estilo de formação de equipes em quadra, aumentando o poder ofensivo por atuar com jogadores que têm postura mais agressiva em relação à cesta, e aumentando também a mobilidade defensiva (rotações mais eficientes) e a velocidade nos contrataques. A diferença de estatura entre os pivôs e os alas de força não é tão grande, mas a agilidade e a velocidade de curta distância são consideravelmente menores nos pivôs. Isso pode limitar as discrepâncias nas trocas de marcação (mismatches) e favorecer a defesa.

Outro aspecto interessante foi a manutenção das portas abertas aos estrangeiros na NBA. Dos 60 selecionados, 12 (20%) são nascidos em outras países, sendo o mais privilegiado a Turquia, com três atletas. Fora da Europa, apenas um brasileiro, um nigeriano e um canadense. Em solo americano, as Universidades de Kentucky (6 atletas), Carolina do Norte (4 atletas), Syracuse (3 atletas), Vanderbilt (3 atletas) e Baylor (3 atletas) foram as que mais tiveram ex-alunos draftados para a NBA.

As preocupações de cada time na NBA são diferentes e dependem do planejamento de cada organização. Algumas equipes precisavam se reforçar imediatamente, enquanto outras já começaram a pensar na futura renovação de seus elencos, para quando suas estrelas experientes se aposentarem ou atingirem o final do contrato tornando-se agentes livres. Toda escolha é uma aposta, e só o tempo dirá se valeu a pena ou não.

O Dirigente Esportivo no Brasil


Esta semana no programa “Bem, Amigos” do canal Sportv, houve um debate bastante interessante acerca da administração do esporte no Brasil, com as presenças dos técnicos de futebol Levir Culpi e Dorival Jr, além das presenças do staff da casa, Junior, Alberto Helena Jr, Caio Ribeiro, Bob Faria, Arnaldo Cesar Coelho e Luiz Roberto. As opiniões apresentadas foram coerentes e possivelmente expressaram os pensamentos de muitos esportistas entre nós, independentemente de modalidade esportiva.

De cara, o que mais me assusta é a irresponsabilidade de vários dos dirigentes, cujas atitudes mostram uma preocupação mais voltada para si próprio do que para o bem do clube. Dívidas ignoradas (falta pouco para alguns dos grandes clubes brasileiros atingirem a marca de meio bilhão de reais de dívida), controle de gastos ausente, contratações sem sentido (a não ser atender a empresários), entre outras coisas. O basquete nacional não se encontra no mesmo patamar de investimentos e visibilidade do futebol, por isso esse tipo de situação não é tão comum na mídia. Mas, até quando estaremos de fora deste tipo de noticiário?

O esporte de alto rendimento precisa ser gerido empresarialmente. Por isso não há mais lugar para dirigentes sem algum tipo de formação básica. Contar apenas com a boa vontade dos abnegados não pode ser a saída para o desenvolvimento esportivo no país. A falta de conhecimento acerca de planejamento estratégico é uma barreira ao crescimento da modalidade. Precisamos de dirigentes que sejam ousados e criativos, porém responsáveis e responsabilizados por seus atos.

Além disso, deve haver algum grau de conhecimento ou assessoria específica sobre como funciona um programa de treinamento a longo prazo. Caso contrário, erros graves serão (e são) cometidos. Tempos atrás, quando eu era técnico da categoria sub-12 (pré-mirim) no Rio de Janeiro, por exemplo, estive numa reunião na Federação de lá para tratar de como seria o primeiro torneio da faixa etária naquele ano. Era março ou abril, e o diretor da federação queria iniciar a disputa já naquele mês. Antes da reunião, os técnicos presentes conversavam sobre suas equipes, e com exceção de duas, todas as demais (umas cinco ou seis) não estavam preparadas para jogar. Como essa era a categoria mais jovem entre todas, vários atletas haviam ingressado pouco tempo antes na escolinha do clube para aprender os mais básicos fundamentos do jogo.

Quando começou a reunião, pedi a palavra e sugeri que o torneio fosse adiado para o 2º semestre, dando tempo para que aqueles neoatletas pudessem aprender o suficiente para disputar uma partida oficial. Aqueles times que se julgassem prontos marcariam amistosos como jogo preliminar do campeonato adulto. Todos os treinadores concordaram. Mas o diretor da entidade disse: “É, só que agora ficou muito em cima. Vamos fazer esse torneio agora e depois a gente pensa nisso.”

Sejamos francos, quem gosta de competição, gosta de ganhar. Assim, todas as equipes queimaram etapas na formação dos atletas em busca da possibilidade de vitórias. Alguns times eram ainda muito iniciantes, e suas derrotas chegaram a ultrapassar os 100 pontos de diferença no placar. A maioria dos jovens atletas derrotados perversa e continuamente abandonaram o esporte ao final daquele torneio. Os próprios clubes limitaram seus investimentos, visto que apenas as vitórias e os títulos interessavam.

Não é proibido ser campeão, mas o verdadeiro papel do treinador da base é participar e dar continuidade ao processo de formação de atletas no longo prazo. Observe que não mencionei que o papel é formar atletas e sim dar continuidade ao processo, de modo a evitar a falsa impressão de que já aos 13 anos de idade o atleta precisa saber de tudo da modalidade, todas as regras, todos os sistemas de jogo, todas as plataformas de defesa, todos os fundamentos, enfim, todas as situações de jogo. Precisa haver um planejamento no qual seja estabelecido o que cada faixa etária deve aprender ao longo do ano, tornando o aprendizado gradativo e cumulativo.  

Se o dirigente não entender isso e se o treinador da base achar que seu emprego depende de troféus e medalhas, o país nunca será um eficiente formador de atletas, e ficaremos a mercê da natural evolução dos nossos talentos, ou ainda da importação de estrangeiros para compor nossa seleção nacional.

sábado, 23 de junho de 2012

Quem Ganha o Jogo: o técnico ou o jogador?


É claro que essa pergunta não tem uma resposta clara e objetiva, mas faz a gente pensar sobre a atuação dos técnicos durante a preparação da equipe para o jogo, e durante o jogo em si. Interpreto estes dois momentos de forma diferente, compreendendo que o treinador tem a responsabilidade de preparar o time ao longo da semana, enquanto o técnico assume prioritariamente a responsabilidade durante a partida. No Brasil, ambas as funções normalmente são exercidas pela mesma pessoa.

Este ano, os jogos dos play-offs da NBA mostraram algo interessante para se debater acerca do papel dos técnicos no desempenho das equipes. Falo em especial do técnico do Miami Heat, Erik Spoelstra, campeão da atual temporada. Ao longo de seu trabalho, aliás, desde o início, muitas dúvidas pairaram no ar acerca do comando do jovem ex-assistente técnico que foi convidado a assumir a função de treinador principal. Os administradores da franquia da Flórida montaram um time com o intuito de se criar uma nova dinastia na Liga. A chegada de LeBron James e Chris Bosh deu ao time um padrão diferenciado, sendo apontado como um dos mais fortes candidatos ao título. O título não veio em seu primeiro ano, e logo a pressão sobre o treinador ganhou força. O início ineficiente fez para muitos críticos, o treinador balançar no cargo, mas a diretoria, principalmente aquele que o colocou na função, o presidente da corporação, Pat Rilley, manteve as coisas como estavam, pois pareciam acreditar em Spoelstra. Mas, o que somente Pat Rilley viu, que ninguém mais percebeu?

Penso que o grande problema ao se criticar é que a ignorância é a mãe do pensamento livre, ou seja, quando você não conhece todos os fatores associados a uma situação qualquer sua versão dos fatos fica repleta de lacunas, e a tendência é completarmos a estória a nosso próprio gosto. Quem aqui acompanhou o dia-dia dos treinos em Miami para saber como era o convívio dos atletas com o treinador? Afirmar que Spoelstra não tem carisma e, portanto, não tem comando sobre o grupo é um tiro longo e quase leviano.

Em minha opinião, Spoelstra paga o preço por ser jovem e de estilo low profile. É importante não ignorar os diferentes estilos de liderança de grupos. Já comentei aqui em outra oportunidade que o treinador deve ser um catalisador de performance, buscando os meios e métodos para que seus atletas alcancem o mais alto nível de rendimento individual e coletivo. Estamos (mal) acostumados com os técnicos “besta fera” em nossas quadras, campos e etc. Devemos entender que para muitos atletas, falar é suficiente, gritar é over. Se a mensagem foi enviada e assimilada através de uma conversa num tom de voz normal, não há a necessidade de se quebrar a prancheta e vociferar perante o grupo. Já vi técnicos dando bronca no time e olhando para a arquibancada atrás do banco de reservas, dando atenção a “sua plateia”. E no final, se perdem o jogo, a culpa é daquele jogador que errou o último arremesso ou daquele outro que não fechou o rebote. Talvez ainda sobre para os árbitros, mas nunca, nunca a derrota é de responsabilidade do técnico. Por outro lado, a cada vitória há a celebração de uma conquista gerada pela perfeita orientação da equipe, dando um “nó tático” no adversário. Será mesmo?

Pra quem não sabe, Spoeltra foi o responsável por criar e implantar o atual sistema de análise de performance utilizado pelo Miami Heat, ou seja, é um especialista em estratégia. Observe as mudanças marcantes na forma de jogar do time ao longo dos play-offs. Os ajustes eram feitos para cada adversário, limitando as ações ofensivas de acordo com a identificação dos pontos fortes dos times, em especial, ao se observar a dificuldade do Celtics para infiltrar no garrafão do Heat nos jogos 6 e 7 da final da Conferência Leste, e depois, nos jogos contra o Oklahoma City Thunder. A defesa, que já era considerada uma das melhores da Liga, ficou ainda mais aguerrida nas finais. O ataque, apesar da forte individualidade do trio James-Wade-Bosh, passou a adotar medidas alternativas, explorando o jogo interno de LeBron (ao invés dos chutes do perímetro) e sua distribuição de bola nas dobras de marcação, aliados aos confiantes arremessos de três pontos de Mario Chalmers, Shane Battier e Mike Miller. O Miami Heat mudou, amadureceu e virou um time. Precisou de 16 vitórias na pós-temporada para mostrar isso. E eu, particularmente, não acredito que estas mudanças não tenham passado pelas mãos de Erik Spoelstra. Ele entende do assunto.  Pode demorar, mas vai mudar a opinião de muita gente. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nosso Solo Sagrado


Tempos atrás, quando eu iniciava minha carreira como treinador, ainda um estagiário, atuando como assistente técnico das categorias de base, me deparei com uma situação um tanto quanto peculiar. Eu trabalhava no Tijuca T.C. do Rio de Janeiro, clube que não tem em suas dependências uma única quadra de futsal (há apenas dois campos de futebol society para torneios internos ou atividades recreativas dos associados). Sendo assim, o Tijuca não tem equipes de futebol ou futsal disputando campeonatos oficiais. Nosso time de basquete sub-13 foi jogar uma partida como visitante contra o C.R. Vasco da Gama. Um dos nossos atletas era de família portuguesa, todos vascaínos no sangue. Eis que ao sair do vestiário para a quadra, este atleta aparece vestindo a camisa do vasco por baixo do uniforme do Tijuca. Aquilo me incomodou bastante apesar do técnico não ter se manifestado na ocasião, e a partir daquele momento decidi que isso precisava mudar.

Quando assumi a direção técnica das equipes sub-12 e sub-13 do clube, determinei junto aos atletas que dali em diante eles não mais torceriam para Flamengo, Vasco, Botafogo ou Fluminense depois de ultrapassarem o portão de entrada do ginásio. Assim, o uso de nenhum short, camisa, meia ou qualquer outro aparato de vestimenta seria permitido nos nossos treinos. Depois de um tempo, os atletas passaram a mostrar maior identificação com o clube, e até mesmo um certo sentimento de orgulho foi percebido. Penso que entre os primeiros aspectos a serem ensinados aos atletas iniciantes deve constar o respeito pela instituição. Esse comprometimento foi inspirador em vários outros momentos de cada jogador ao longo dos anos seguintes.

Outra coisa a se respeitar é a quadra. Nosso campo de jogo deve ser conservado por cada um de nós que utilizamos este espaço. Enquanto fui o responsável por aqueles atletas, nenhum deles entrava na quadra descalço ou de chinelos, somente de tênis apropriado para o jogo. Eu mesmo quando calçava sapato nos dias de jogo não entrava na quadra de forma alguma. Precisava também dar o exemplo, e os atletas, apesar de bastante jovens ainda, notavam isso.

Sinto pena de ver como estes hábitos parecem ser tão distantes da realidade de hoje em dia. É como um sentimento de profanação do nosso solo sagrado. 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Basquete Brasileiro: crise ou crítica?


Hoje terminou o Campeonato Fiba Américas U18 masculino. A competição, realizada em solo brasileiro, na cidade de São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, reuniu a nata do basquetebol das Américas que certamente estarão na mídia nos próximos anos, quem sabe até, de volta a nosso país, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. Além do sempre favorito time dos EUA, os olhos dos espectadores e da mídia focaram o elenco argentino, países com programas de desenvolvimento do basquetebol muito mais avançado do que o Brasil.

Tudo isso escrito acima é verdade. A preocupação com a participação brasileira é uma constante entre os cronistas e blogueiros tupiniquins. Mais uma vez, muita desconfiança, e uma torcida meio discreta, quase precisando que as coisas dêem errado para terem o que criticar impiedosamente sobre nosso esporte. Espero que este texto até aqui não os tenha levado a uma interpretação equivocada a meu respeito, fazendo-os pensar que eu acho que está tudo bem com o basquete nacional, que nossos times são os melhores, que nossa organização e administração esportiva é exemplar. Não vamos nos iludir, nem eu e nem vocês. Mas convenhamos, parte da crise do basquete brasileiro é proveniente de um exagero, transformado em uma espécie de histeria coletiva dos críticos.

A primeira coisa é a matemática imprecisa. É muito cruel (já disse isso aqui antes...) esse discurso sofista de que o Brasil está há 16 anos sem participar dos Jogos Olímpicos, uma competição que só ocorre de 4 em 4 anos. Se formos levar isso ao pé da letra, a atual campeã Espanha já se encontra afastada das quadras olímpicas oficialmente há 4 anos! Nem os EUA, atuais campeões mundiais escaparam deste mesmo período de ostracismo. Deixemos então de mencionar 16 anos, e sim, comentar (e lamentar) que ficamos três edições olímpicas de fora.

A outra coisa é o tratamento diferenciado que a crítica dá aos fatos ocorridos com nossos times em relação aos demais. Por exemplo, Ruben Magnano não gosta de câmeras e microfones em seus pedidos de tempo, e acham isso um absurdo. Na NBA mostram única e simplesmente os discursos motivacionais, mas nunca a parte tática. Mas ninguém reclama. Disseram que a final do NBB foi um jogo de baixíssimo nível técnico que demonstrou a fragilidade do basquete nacional. Será que estes não assistiram a final da Euroliga? O jogo só ficou bom de verdade quando faltavam cerca de 5 min para o fim. Até lá, foi uma tremenda pelada, em especial o primeiro período. Será que isso demonstra a fragilidade do basquetebol russo e também do grego?

 Reclamam que o basquete brasileiro desde o final os anos 1980 passou a se basear nos arremessos de três pontos, sem preocupação com variações táticas ofensivas. Não sei o que vocês vêm, mas será que não é exatamente isso que acontece nas arenas do Miami Heat e do Oklahoma City Thunder nas finais da NBA? No final do jogo de ontem (jogo 4), o ex-técnico e atual comentarista dos canais ESPN Zé Boquinha foi muito feliz em dizer que Russel Westbrook é um armador de pelada. A quantidade de erros básicos cometidos por ambas as equipes, comandadas por dois técnicos que nunca receberam o reconhecimento por seus trabalhos, e a total falta de estrutura tática ofensiva (principal característica tanto do time do leste como do oeste), nunca receberam as críticas dos amantes do esporte. Os arremessos precipitados de longa distância ao chegar num contrataque sem rebote, ou logo após a recuperação de um rebote ofensivo foram presenças marcantes no repertório dos times.

Quanto ao nosso estilo de jogo baseado exacerbadamente nos arremessos de longa distância, vocês ficariam chocados em saber que a média de arremessos de três do NBB, da Euroliga, da Liga Endesa (ACB Espanhola) e da Lega Nacional (Liga Italiana) são rigorosamente iguais? Em todos os campeonatos, as equipes tentam sempre cerca de 20 arremessos de três pontos por partida (em breve nossa equipe vai comentar mais sobre isso). Será então que nosso estilo de jogo é ainda tão diferente dos europeus?

Quanto ao processo de renovação, penso que estamos no início de um trabalho que só vai colher frutos bem mais tarde, provavelmente quando outro grupo estiver à frente da administração da modalidade. Estamos ainda preparando o terreno e começando a plantar as sementes. Devemos ter mais parcimônia e melhores critérios para poder avaliar e criticar o estado atual do basquete brasileiro, mas sempre numa perspectiva de crescimento em curso.

Pra finalizar, vejam só estes dados: a Argentina U18 perdeu duas vezes para o Canadá e perdeu de lavada para os EUA nas semifinais. Acabou o torneio em quarto lugar. Imaginem se fosse o Brasil...o que estariam comentando por aí?

PS: Após um terceiro quarto muito ruim, o Brasil perdeu a final do U18 para os EUA. Placar final: EUA 81 x 56 Brasil.